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domingo, 12 de dezembro de 2010

A CANTORA CARECA: A GRANDE METÁFORA DA CONDIÇÃO MISERÁVEL DO SER HUMANO
Não é absurdo uma cantora careca, Cantoras não precisam de tranças... precisam de voz... o absurdo é a voz que permite a purgação dos absurdos.




Se levarmos em consideração que uma das características do Teatro do Absurdo, estética que se constitui de elementos de um período diferenciado, permeado de situações no pós-guerra, onde há uma total falta de perspectivas, respostas e expectativas, onde o ser humano se percebe e toma consciência de sua condição humana de ser misérrimo, é compreensível a criação de uma arte onde o acontecimento de situações inusitadas, ilógicas, como acontece já nas primeiras páginas da obra A CANTORA CARECA de Èugene Ionesco, adquira um espaço.

Na primeira cena há uma conversa absurda entre o senhor e a senhora Smith. De todos os absurdos o que chama atenção é o fato de eles dizerem que comem bem devido ao sobrenome que têm. Ora, se pararmos para refletir, talvez não seja tão absurdo assim, pois, muitas vezes o sobrenome carrega o status financeiro do indivíduo.

Nesta realidade distorcida, as situações são apresentadas de forma inusitada, ilógica e irreal, mas, se forem analisadas de forma mais meticulosa e aprofundada pode-se perceber que possibilitam diversas e instigantes leituras que sugerem indagações que são latentes e pontuais no cotidiano das pessoas.

Nesta cena é representada a vivência de um casal fútil, que fala de coisas fúteis, possuem uma vida fútil, preocupações fúteis e, por que não dizer, relacionamentos fúteis.

Quando Ionesco aborda a família Bobby Watson, talvez queira chamar a atenção para a “mesmice” da instituição familiar, com seu modelo padronizado que parece estar invalidado para o determinado contexto no qual está inserido.

Dentro da linguagem do absurdo a personalidade dos filhos apresenta-se de forma repetitiva e de como eles são observados pelos pais, as parecenças, conforme seus vícios e virtudes.

A questão do relógio pode revelar uma desordem no tempo. Às vezes mais rápido, outras vezes mais demorado. Por um momento pesado, assustador. Afinal, o que é o tempo, senão a sensação de infinitude ou ligeireza dos acontecimentos e a correlação desta brevidade ou demora com o prazer ou desprazer do jogo existencial?

Na segunda cena podemos ter uma leitura de que a personagem Mary tem uma libido bastante “movimentada”, vai ao cinema com um homem e vê um filme com mulheres. Provavelmente a aguardente serviu para regar a companhia masculina e o leite a feminina, levando-se em consideração que estes símbolos, da maneira que são projetados, podem sugerir tal interpretação. Posteriormente, o fato de Mary comprar um penico também pode ser lido, interpretado como o que ela sente em relação aos patrões e, talvez, o que gostaria de dizer a eles, já que ela pode simbolizar uma classe oprimida.

A quarta cena talvez reflita acerca da grande metáfora da hipocrisia de casais que vivem juntos, mas que não se conhecem, ou que deixaram de se conhecer, ou que não mais se reconhecem. É como se fossem estranhos: tratam-se por “meu senhor”, “minha Senhora”. Elizabeth e Donald, com o passar do tempo, podem ter se distanciado e, de repente, o tempo passa ( a batida forte do relógio, citada na página 50 não serve somente para que os espectadores se sobressaltem, mas para que o casal “acorde” e tente resgatar o tempo perdido).

O discurso de Mary na quinta cena oferece a possibilidade para que tenha uma leitura sobre a postura dos pais depois da chegada dos filhos, ou seja, quando a família vai agregando novos membros ( os filhos ), os pais já não são mais os mesmos, a relação não é mais a mesma, o olhar em relação aos novos membros não é o mesmo. Cada um observa os filhos sob o próprio prisma. É inútil pensar que com a chegada de novos membros as coisas continuarão como estão. Donald não enxergará mais Elizabeth do mesmo jeito e Elizabeth não enxergará mais Donald da mesma forma. Eles se modificam e adquirem novas características, mas talvez não tenham feito alguns ajustes para que a situação homem e mulher, macho e fêmea não se tenha abalado. Como não sabem administrar tal situação acabam se distanciando.

Mary se autodenomina Sherlokholmes. Ao mesmo tempo que representa uma classe oprimida, é também uma espécie de consciência, de alguém ou alguma coisa que tende a fazer Elizabeth e Donald se olharem e descobrirem que não sabem quem são.

O relógio é uma constante nas cenas, ou seja, não importa o tempo que passou, o que aconteceu, o que não aconteceu, o que poderia ter acontecido e o que poderia não ter acontecido, eles sempre podem recomeçar, tudo parece cíclico, circular.

Ionesco, através da cena sete, ironiza as regras de etiqueta, a elegância, os bons modos e todas as manifestações de apreço que são rendidos a quem talvez não esteja nem interessado na alheia existência. O senhor e a senhora Smith entram com a mesma roupa e alegam para os Martim que os esperavam com ansiedade, pois até colocaram roupas de gala.

Ainda na mesma cena, versa sobre os conceitos que são abrangentes e flexíveis e que nem tudo o que parece é, ou seja, “nem sempre quando toca a campainha significa que há alguém para entrar na nossa casa” e que às vezes há alguém querendo entrar na nossa casa, na nossa vida e que, apesar da campainha, não ouvimos estas pessoas.

Observa-se também que a vida é cheia de surpresas: “ a experiência nos ensina que quando a gente ouve a campainha tocar é porque não tem ninguém”. Há que se tomar cuidado com a campainha de nossa casa, porque ela pode tocar e ser nada mais, nada menos do que NINGUÉM e podemos correr o risco de permitir que NINGUÉM entre no nosso lar, farte-se da nossa comida, do nosso vinho, da nossa alma, banhe-se da nossa água, cubra-se com nosso manto e acabe se revelando como NINGUÉM.

O Teatro do Absurdo é uma possibilidade de dizer as verdades de forma distorcida chamando a atenção para o que realmente está deformado. É preciso que crie bolinhas no nosso blusão mais bonito para que a gente perceba que a linha não era de boa qualidade. Ionesco era bom nisso...



“É quase impossível suprimir em uma lauda o tanto de não- absurdo que o absurdo pode comportar e a cantora careca todos os dias vai mudando o seu penteado toda feliz e faceira porque carecas cabeludos jamais pegam piolhos.”

Um comentário:

Luiz Fernando disse...

Vc não muda mesmo! Sempre na frente do seu tempo. Abç!