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terça-feira, 17 de agosto de 2010

BLOGANDO SOBRE O ABANDONO

NEGRO OSVALDO






Quando menina, havia nos arredores de minha casa Negro Osvaldo. Meu pai sempre o chamava para capinar o pátio e a mãe fazia um grande  prato de comida, botava café em uma garrafa de coca cola e mandava um de nós entregar para o pobre. O pai não gostava que a mãe conversasse com outros homens, até para comprar na venda, geralmente ia o pai, mas se tivesse de ser a mãe ela ia... de cabeça baixa, porque era mulher direita... de cabeça baixa. Negro Osvaldo comia, recebia uns trocados de meu pai e depois de um "deus lhe pague" ia direto para o boteco do seu João. Todo mundo gostava dele na minha casa. Os vizinhos achavam que o Negro Osvaldo tinha de ser levado para um hospital e se curar do vício da bebida. O pai dizia que não, que se tirassem a cachaça do negro, ele morreria.

Um dia levaram o Negro Osvaldo para um hospital e ele parou de beber, andava limpo, asseado e falava com clareza. Pouco tempo depois se enforcou. Um dia, cevando um chimarrão, o pai, que falava comigo como se eu fosse um homem, me confidenciou: Negro Osvaldo fora casado, a mulher emprenhou de outro macho, mas ele queria o menino branquelo como se fosse dele. Um dia a mulher se enrabixou de novo pelo pai do branquelinho e se foi a la cria se esfregar no mesmo macho que a abandonara sem eira nem beira, com uma mão na frente e outra atrás, na rua da amargura, com uma cria na barriga e a vergonha na sarjeta. O pai disse que o branquelo berrava de fazer dó e atirava os bracinhos para o Negro Osvaldo, gritando : pai, pai... Depois disso o negro se atirou na vida, ficou dominado pela cachaça e vagava pelo mundo, fazendo pequenas capinas na casa de gente como a gente, dividindo os trocados que recebia: metade de cachaça e um saquinho de bala de hortelã pra guriazinha ali, aquela branquelinha e arteira como um moleque... era eu.

Um comentário:

Moizes disse...

Tu vê! Que loucura! Que vidas! Tristes, sofridasmas mas intensas! Pacionais!...