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sexta-feira, 1 de agosto de 2008

´QUANDO MORREM AS MACABÉAS

QUANDO MORREM AS MACABÉAS


Escrever sobre A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, é também, entre perspectivas comparatistas, abordar a sexualidade, o perceber-se mulher, fêmea, desejável, o descobrir-se amada, o desabrochar, o passar do casulo para a crisálida.
Macabéa é isso: o enrustimento, a negação do bicho-mulher, o enclausuramento, o celibato, o viver mesquinho, enfim... lambuzar-se de cachorro-quente engordurado, sonhar com grandes estrelas, um universo muito longínquo para quem se acha no dever de pedir desculpas por existir.
Reportando-se a diversas personagens femininas que permeiam o imaginário dos leitores e escritores constata-se que, uma vez descoberta a metamorfose, ou seja, quando o casulo dá lugar à borboleta, neste momento surge ou arde a mulher: é a morte, literal ou não, de todas as Macabéas.
Iniciemos pois no cenário teatral pelotense. O escritor riograndino, professor Valter Sobreiro Júnior, radicado na cidade de Pelotas, criou a “China Rosa “ e a “Andreza”.
A China Rosa, prostituta do período da Revolução Federalista de 1893, ao descobrir-se mais mulher do que amante, é surpreendida pela trágica e comovente “desmacabeização” nos braços de seu amor.
Cito Sobreiro:
“ Gabriel, meu bom amigo,
me tocaste o coração.
O corpo qualquer um toca,
mas o sentimento não. “
(Maragato- página 82, editora e gráfica da Universidade Federal de Pelotas)
Para Andreza, em DOM LEANDRO OU OS SENDEIROS DO SANGUE, ser mulher consistia em fazer-se mãe, uma vez que não era desejada pelo marido. Ao ter seu filho e este vir ao mundo sem vida, a personagem sentiu o gosto de ser mãe e mulher , bem como o amargor de perder tudo isto.
Cito Sobreiro:
“ANDREZA: Apartado de mim junto ao meu seio
neste inchaço de leite prematuro...”
(DOM LEANDRO OU OS SENDEIROS DO SANGUE- página 83-Educat-1999)
É a metamorfose dolorida do processo inverso : a mulher que volta a ser MACABÉA.
Em A MEGERA DOMADA, de Willian Shakespeare, temos a azeda e mal humorada Catarina, que nega sempre a sua sexualidade no difícil processo de sedução com Petruccio. Uma vez vencida, falece a MACABÉA e nasce uma Catarina amada, acariciada, vibrante, mulher que sai do casulo.
Viajando por GRANDE SERTÃO VEREDAS de Guimarães Rosa encontramos a MACABÉA Diadorim que não teve o seu desabrochar.
Cito Guimarães Rosa: “ De Maria Deadorina da Fé Bettancourt Marins- que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar , sem gozo de amar...” (GRANDE SERTÃO VEREDAS- PÁGINA 458)
Encontramos em “DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS “ uma flor incandescente , quando na companhia de Vadinho e uma flor Macabéa quando casada com o farmacêutico.
Já em IRACEMA, de José de Alencar, a virgem dos lábios de mel deixa de ser MACABÉA quando gera Moacir, o filho da dor. É o romper com sua tribo um passo para a metamorfose.
Também Chiquinha Gonzaga transpõe, traz o maxixe, o lundu, o florescer, o desabrochar.
Quem sabe falemos então na Rita, personagem do conto “A CARTOMANTE” de Machado de Assis. É o amor por Camilo, mais do que a suposta fúria passional de Vilela, que faz morrer a MACABÉA. A formosa e tonta Rita era apenas uma dama infeliz. Neste conto é a sibila, a pitonisa, que dá, por assim dizer, o grande empurrão para o desabrochar da Macabéa.
O viver “ralo”, “medíocre”, destas mulheres consiste no não imaginar que o bicho- mulher é a mulher-borboleta que sai do casulo e voa procurando polinizar a falta de limites do universo feminino.
A Hora da Estrela é, na verdade, a hora da constelação, da metamorfose, da transladação, é o momento em que a mulher olha no espelho e consegue, como escreveu Machado de Assis em seu conto O ESPELHO, estabelecer a diferença entre a sua alma externa (aquela que os outros enxergam) e a alma interna (aquela que realmente é) .
O que se conclui desta tentativa de achar um pouco de MACABÉA no imaginário das personagens estudadas é que não basta mudar o exterior: pintar as unhas, os cabelos, delinear as sombrancelhas. Para assassinar a MACABÉA é preciso mais: é preciso deixá-la viver. Não se mata o que não se vê. É preciso criar marcas:“MARCABÉAS.”
Há um momento em a Hora da Estrela em que sua colega de trabalho lhe rouba o seu homem e ela não reage , não enfurece, acha que a vida ,é assim. Vai em uma cartomante que lhe fala todas as verdades que são as verdades de quase todo o universo feminino , os nossos complexos de cinderelas , porque passa o tempo e a gente ainda quer um Olímpico de Jesus Moreira Chaves. eu me apaixonei pela MACABÉA, pelo seu viver tão fora da realidade, com o seu contentar-se com um radinho , com um docinho, com a sua tosse que embalava o sono das colegas de quarto.
Entendi facilmente que o narrador tinha um eu lírico feminino. Eu vivi o mundo de MACABÉA, de ter um chefe graúdo para o qual devemos responder com lisura, de ter colegas que são tão melhores do que a gente em muitas coisas, de ter várias Marias como colegas de serviço, todas razoáveis, incansáveis, competentes, batalhadoras, em série. Fiquei feliz porque o narrador tendo o eu lírico feminino, ofereceu a possibilidade de sonhar que MACABÉA morreu acreditando em tudo que a cartomante lhe prenunciara... É tão bom acreditar... mas acho que morri um pouco com MACABÉA.
“ Eu agi sempre pra dentro... eu nunca toquei na vida.” ( Fernando Pessoa)

2 comentários:

Letícia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Letícia disse...

Texto muito bom!!!
Fiquei muito contente em lê-lo, é um texto muito rico e criativo. Parabéns!
Da ex-aluna
Letícia